Prólogue: Solitária.

 


Festa de Hallowen da Bianca: Uma noite sem lei. 

- Data: 29.11. 2015.

- Local: Casa abandonada, na estrada de Lincon.

- Só entra quem estiver fantasiado. 


    Suspirei ao terminar de ler o pequeno papel que Charlie havia me entregado. Ele me olhava apreensivo, um pouco eufórico e ofegante. Meu primo e amigo esperava por uma reação minha. Ao notar que eu dei uma leve negada com a cabeça ele revirou os olhos e massageou as têmporas. 

     - Você sabe que eu te amo, não é? 

    - Acho que deveria mesmo, sou sua prima, quase irmã, se não amasse diria que você é no mínimo um sociopata, frio para caralho. 

    - Eu te amo, mas não dá para entender o porquê de sempre recusar as festas que te chamo, parece que você não gosta da minha companhia. 

    

Ele sabia ser dramático como ninguém mais conseguia. 


    - Eu não gosto de festas, você sabe. Ainda mais quando eu sei que vai me deixar sozinha e ir ficar com seus amigos. 

    - Eu não te deixo sozinha!

    - Talvez não sozinha de corpo, mas eu fico totalmente deslocada ao lado dos seus amigos. Não tenho assunto com eles, não faço parte da vida deles e eles me acham estranha. 

    - Não acham não....ok, talvez um pouco, mas quem em sã consciência leva um kindle para a balada e fica lendo ao em vez de beber algumas biritas? 

Ri ao lembrar de Charlie gritando em meu ouvido que ele ia jogar o aparelho no vaso do banheiro se eu não parasse de ler. 

       - Eu precisava saber o que ia acontecer no final. 

      - E não podia ter esperado? Enfim, vamos por favor... Kyle vai estar lá, você sabe que estamos quase namorando, não é? Ele quer te conhecer. 

        - Talvez outro dia. Você pode trazê-lo aqui enquanto tomamos um café, o que acha? 


Ele revirou os olhos mais uma vez. 


         - Certo. 


 Bufou frustrado.


        - Quer assistir um filme? 

        - Não. Eu já vou indo, nos encontramos outro dia, ok? Preciso ir atrás da minha fantasia. 


    Assenti, por mais que não quisesse que ele fosse embora naquele momento. Me sentia solitária e por mais que o convite da festa não me agradasse, pensei seriamente em aceita-lo ao ver o meu primo sair do meu quarto, mas mais uma vez hesitei e acabei ficando quieta, dando um último sorriso para ele. Levantei da minha cama e segui para a minha cadeira, abrindo meu notebook, voltando a ler o pdf da minha aula de antropologia. Eu estava no meu primeiro período de economia e estava feliz com a minha escolha, era uma mistura de matérias e deixava as coisas mais dinâmica, havia matemática e muita teoria da parte de humanas, por isso não era tão monótono como outros cursos que cogitei fazer antes desse. Meu celular apitou e a minha felicidade momentânea ao pensar que poderia ser alguma das minhas amigas ou meus pais querendo falar comigo, se dissipou no momento que vi a notificação do aplicativo me mandando fazer exercícios físicos. Revirei os olhos e apaguei o aplicativo, afinal, ele só ocupava memória do meu celular e eu sequer usava aquilo. Cansada de ficar sentada ali, fui até a cozinha preparar algo para comer, mas não tinha nada além de uma meia caixa de cereal. 


    Preciso fazer compras urgentemente. 


    O apartamento estava em tons dourados, devido ao sol que se escondia mais uma vez ao chegar o fim do dia, as cortinas balançavam devido os ventos e mais uma vez eu estava sozinha ali. Esse era uma sentimento que eu conhecia bem, minha solidão. Eu tinha algumas amigas de infância e tinha família também, mas eles tinham suas vidas, tinham outras amizades, faziam outros planos e viviam sua vida paralelamente. E eu queria poder fazer o mesmo, mas não era fácil pra mim, como aparentemente era para eles. Gostaria de poder fazer mais amizades e sair para um barzinho e jogar conversa a fora, mas eu não conseguia, não com estranhos, apenas com quem já fazia parte da minha vida desde muitos anos. Eu falava algumas coisas básicas da faculdades com alguns colegas de curso, mas não passava disso. No fim do dia eu continuaria sozinha. Minha irmã e Charlie dizem que é por opção e eu gostaria mesmo que fosse, mas é muito mais complexo do que parece. Tenho medo, sou insegura e tenho dificuldade de me expressar. Sinto minhas mão suarem, meus dedos ficam trêmulos, minha boca seca, minha respiração fica limitada, meu coração acelera e meu estômago se revira inteiro. Aposto que ninguém gosta de se sentir assim e eu que constantemente sinto isso, então evito ao máximo situações que me deixem desta forma, incluindo festas com desconhecidos, fazer novas amizades pela faculdade, falar em público e encontros. Todas as noites deito minha cabeça no travesseiro e me martirizo por ser assim, por ter me tornado isso. Eu até hoje não sei o que me causou isso, mas tenho uma lista mental das coisas que podem ter sido as causadoras dessa dificuldade. 

 - Bullying na época da escola. 

 - Bullying no meu curso de japônes.

 - Mãe superprotetora até demais, cuja não deixava sair para lugar nenhum com ninguém.


    Acredito que algum desses tenha relação, mas não tenho certeza. De qualquer forma, já está feito, certo? Essa sou eu agora e se não tem como mudar, basta aceitar que esta sou eu. Solitária, de beleza mediana, personalidade sem muitas surpresas, sem talento nato para nada, um pouco explosiva e pé no chão. Esta é Elisa Maia.












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